Agora, o pequeno mindinho de amor que eu sinto por você me faz questionar qual foi a última vez que eu fiz sexo amando a pessoa. Foi lá pra 2014, eu acho.

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Retrospectiva 2017 – parte 3/3

Voltando ao Marcelo, chegamos no show (dos bons), ele bebeu sei lá quantas cervejas e ficou loucasso, num vexame da porra. Subiu no palco, pagou de tiozão. Ficou olhando as meninas com namorado do lado de uma forma ofensiva. Ficou violento. Tudo isso comigo sóbrio lá do lado, só observando. Tem uma hora – acho até que em todos nós – que o fogo no rabo toma proporções solares. Ele ficou doido pra pegar alguém. Mas não conseguia falar. Não conseguia andar. Estava naquele estado de bêbado que cospe nas pessoas, que quer contar piadas sem nem entender o que está falando. Coloquei ele pra sentar, pra ver se passava um pouco. Ele quis ir ao banheiro. Beleza. Notei que ele estava olhando uma menina que estava com um namorado do lado. Acho que todas as meninas daquele lugar estavam. Parece que foi tudo desenhado para a merda. Ele voltou do banheiro. Esperamos um pouco mais, sentados juntos. Eu falei para irmos embora. Ele disse que só ia mais uma vez ao banheiro. Foi. Eu fui para o caixa pagar a minha conta. De repente sinto um toque violento no ombro. “Esse cara aí é teu amigo? Você tá com esse cara aí?”, apontando para o Marcelo, que chegava, me disse um sujeito, com voz atiçada. Eu, ingenuamente, disse que sim. A partir daí foi uma puta confusão. O cara disse que o Marcelo tinha passado a mão, intencionalmente, na bunda da mulher dele. Meu Deus! Mais uma situação que eu preferia não ter passado. Que vergonha. O cara veio pra brigar, disse que tinha uma arma no carro, que ia esperar a gente sair pra dar um tiro na gente. Foi um inferno. Que loucura! Ainda bem que eu estava sóbrio 100%, e aí eu consegui dar uma leve apaziguada na história. Ele sequer lembrou a senha do cartão dele para pagar a conta. Adivinha quem pagou as 13 cervejas que ele bebeu? Sim, euzinho. Mas eu só queria ir embora. Os seguranças nos levaram até o carro e viemos para a casa dele. Ele vomitou no carro todo. Aquele fedor de vômito subiu, me deu uma puta náuzea. Ao final, chegamos em casa vivos. O Marcim abriu a casa. A namorada do Marcelo estava puta (como sempre, mas dessa vez com razão). Eu vi que o problema ali era entre os dois, por isso ele descontava na bebida. Eu disse a ela: “Cara, não briga com ele. A gente quase tomou um tiro hoje. Na minha concepção, a gente tem que cuidar de quem a gente ama. Não me importa que tipo de problema vocês estão passando. Só resolvam. Desse jeito não dá pra ficar”. Ele subiu, caiu de cara na escada. Ela o pegou e levou para o quarto. Depois eu vim pra casa. Depois, graças a Deus, Henrique vivo, fui pensar sobre o que havia acontecido. Fiquei puto no outro dia e mandei mensagem pra ele cobrando o dinheiro da conta. Não porque ia me fazer falta, mas porque eu me senti pagando pra viver aquela situação. Foi bem ridículo. Nunca esperaria isso dele. Eu o admirava, achava uma pessoa inteligente e respeitável. Agora, depois desse relacionamento, me parecia ter se tornado outra pessoa. Mas a pergunta do “quem sou eu?”, nesse caso, não é minha. É dele. Outro dia ele apareceu aqui, me pediu desculpas. Eu disse que relacionamento assim, não importa o quanto se goste da pessoa, não dá certo. Falei de mim e da Alana, de que eu gostava dela, mas sabia que não ia dar certo. Talvez no futuro, depois de algum tempo. Não sei. Mas não dava. Não havia crescimento. Ele só se esburacava cada vez mais. Mas enfim, a gente às vezes precisa de quebrar a cara por si só pra aprender. O importante é aprender. Tomara que ele consiga isso.

Ah, pouco tempo antes eu comprei um celular pra minha mãe. Ela foi um pouco relutante no começo, mas depois instalou o aplicativo do tamagoshi gato e todos os dias eu via ela escovando os dentes dos gatos no celular, com uma expressão infantil de felicidade. Foi lindo. Agora vive no whatsapp, vendo as fofocas, as novelas, e, claro, mexendo nos gatos virtuais. É bem legal poder retribuir um pouco. É bem legal uma pessoa que nunca teve uma gota de luxo poder ter um bom celular, ao menos.

A vida profissional, no ano, deu um pequeno salto. Comecei o ano com medo, lembra? Estagiário. Termino o ano com a confiança plena do Ministro, que me ouve em todos os pontos. Que me consulta no dia de Natal sobre um texto que foi publicado na Folha. A profissão de ghostwriter me caiu bem. Consegui uma certa excelência naquele emprego. Prestígio. Elogios quase que diários, em substituição às humilhações de antes. Foi uma puta luta, mas posso dizer que consegui vencer. Combati o bom combate. Depois eu procuro e salvo os textos escritos por mim e assinados por ele. Por influência do trabalho, foi um ano em que eu tomei uma visão mais ativa da vida. Passei a discutir algumas coisas que eu nunca me importei de verdade. Discuti com o Luar algumas vezes. Defendi meu ponto de forma mais incisiva. Percebi que a vida passa, e fazer aquela expressão anêmica de não se importar, como se eu fosse superior e não precisasse de nada, não é uma boa opção. A passividade diante dos fatos acabou ficando de lado. Isso foi muito bom. Ponto pra mim. É extremamente necessário se posicionar (desde que não seja um posicionamento de merda né?). Dei aulas no IDP pelo Ministro. Uma delas foi ótima. As outras foram meio fraquinhas. Mas eu fiquei muito satisfeito pela confiança dele em mim. Afinal, eu sou só um graduado. Não tenho mestrado nem nada. Ah, dei as aulas de Português no cursinho também, que foram muito mais interessantes e fluidas. Bem legal. Gostei bastante. E dei uma de Direito Administrativo. Bom que dá uma graninha também. (e eu no começo do ano morrendo de preocupação com dinheiro). Falando em dinheiro, foi meio que um erro contar às pessoas o quanto eu ganho. Elas sempre querem que eu pague alguma coisa pra ela. Eu acho de boa pagar. Mas não acho de boa encararem isso como uma obrigação minha. Nem quando fazem cara feia se eu não pago. Mas fez parte do processo de viver na miséria e depois ter um pouquinho de dinheiro. Eu meio que senti a necessidade de falar. Me senti um pouco vitorioso. Queria compartilhar isso. (deu pra ver que eu gosto de compartilhar né? Hehe)

O último capítulo do ano: “Vida de caramujo: minha casa nas minhas costas”, também conhecido como “As Três Holandesas”. Pesquisei os lugares, montei um roteiro, comprei umas coisas, coloquei num mochilão e fui. Tudo de ônibus. Primeiro, Brasília – Campo Grande. Que calor, bicho! Cheguei lá e fiquei o dia todo na rodoviária torrando. Um tédio da porra. Foi uma bosta. Depois mais um ônibus, à noite, para Corumbá. Mais calor da porra. Depois segui para a fronteira. A experiência de estar na fronteira é, no mínimo, curiosa. Estava bem suado, fedido. Fiquei um tempão na fronteira. Atravessei. Tem aquela teoria do marcos de que as pessoas são feitas em formas. Conheci, nessa hora, o típico espécime roqueiro adolescente (com 26 anos a criatura). É aquele cara que só fala de rock. Conheci uma menininha do sul. Logo tive que lidar com a corrupção sulamericana. Quase todo mundo quis me passar a perna. Ainda bem que a lingua me ajudou muito. Meu espanhol está melhor do que eu pensava. Foi a primeira vez fora do País, sozinho.

Ah! Um ponto que mudou drasticamente é que antes eu abria muito a mão de mim. Se eu, antes, tinha uma necessidade que não era satisfeita por quem eu achava que devia, eu ficava quieto. Agora, não quer fazer? De boa. Mas eu não vou rejeitar mais a minha necessidade. Outra pessoa faz. É o caso neste exato momento, sobre cuidar de mim por causa do acidente. Não quis cuidar? Blz. Outra pessoa cuida. (mas deixa isso pro ano que vem… 2019 – MEU DEEEEEUS!)

O conforto de estranhos. Ninguém te conhece. Voce pode ser quem quiser. E mais: são relações instantâneas. Cinco minutos e tchau. Passei meu ano novo no meio do deserto em Uyuni. Quase morri algumas vezes antes de chegar lá, no ônibus, motorista bêbado… mas to aqui, vivão e digitando com apenas uma mão (a outra tá bad). Conheci primeiro o Mateus. O caminho até lá foi um importante tempo de reflexão. Eu realmente precisava desse tempo. Ao contrário do que dizia a Alana, eu não tinha um tempo só pra mim porque a vida não deixava. Filé de lhama ao molho madeira. Delícia! Foi legal ter conhecido o Mateus. No outro dia conhecemos o Pedro e a Raíssa. Um casal gente boa. Ele, um cara lindo. Nessa hora eu dei graças a deus por a Alana não estar lá: ela ia ficar secando o cara 24 horas por dia, deixando todo mundo desconfortáel. A gente grudou com um casal argentino. Toda hora tinha assunto. Conversei horrores com a Virginia, a argentina. Paisagens surreais. Passei o ano novo no meio do nada, ficando com a primeira holandesa da minha vida. Dar em cima de alguém em inglês é hardcore haha. Mas foi legal. O ano novo foi infinitamente melhor que o outro. Eu estava livre, risonho, falante. Há muito tempo eu não me via assim. Devo cortar a viagem aqui porque foi o fim do ano cronológico. Vou deixar a melhor parte da história só pro ano que vem (espero estar vivo até lá).

Como conclusões finais:

Quando eu encontrar uma companheira, em você ou em qualquer outra, eu fico. Caso contrário, não. O pior é que essa geração parece criada para levantar a bandeira da independência enquanto internamente é egoísta. Parece gritar por igualdade, mas, internamente, querer sempre ser melhor que o outro. “Um exemplo de bondade e respeito, do que o verdadeiro amor é capaz”, diz aquela música. Eu já tive isso antes e não vou me consolar com menos que isso.

Ralar o jelho é necessário. Doer é necessário. A nova geração super protegida, que não pode nunca se machucar, que não pode ter responsabilidades, compromissos, que acha que é trouxa quando faz alguma coisa pelo outro, mas que adora postar frases de amor ao próximo no Facebook. Dá likes.

Eu nunca farei um ménage com uma pessoa que eu gosto. Alana menos ainda (fica com ciúmes até hoje só de eu conversar com outra menina, imagina me relacionar… ela acaba falando essas coisas pra parecer cool, ou desapegada, mas é igualzinha a mim, ou até pior)

As coisas que eu comprei no ano. “Quando eu cheguei aqui isso tudo era mato”, disse a Alana. Realmente. Nem a descarga do vaso funcionava no começo do ano. Meu quarto agora tem tudo novo. A ultima coisa que eu comprei foi uma bucha de banho haha, mas mudou tudo.

Melhores filmes: Logan e Mãe.

Termino o ano viúvo. Viúvo da Catarina. Viúvo do IDP. Viúvo da Alana. Viúvo da Winnie, da Naomi. Viúvo de Santa Cruz de La Sierra, de San Pedro do Atacama. Viúvo de Cusco. Algumas lembranças em .gif ficam aqui, dentro de mim, guardadinhas com o maior carinho possível. Nada vai tirá-las. Nunca. Viver, pra mim, é isso. Acumular boas lembranças.

O que move o mundo é a energia sexual, dizia a Bárbara. Nunca me esquecer.

Chris Cornell e Chester morreram. Senti bastante. Imagina quando o Eddie Vedder morrer. Tá louco.

A maior lição do ano fica em “estar disponível”. Para o quê você está disponível? Você tem que trabalhar, dar atenção aos amigos, à família, manter relação com gente que você não gosta, ser político. Controlar absolutamente tudo o que você fala, posta, compartilha, vive. Ainda, ser pacífico e compreensivo com sua namorada. Estudar. Se alimentar bem. E mais um milhão de coisas. Ninguém está disponível a isso tudo o tempo inteiro. Há momentos. Pra tudo. Se eu vivesse exclusivamente para me relacionar afetivamente, com certeza meus relacionamentos seriam melhores. Ou se eu vivesse apenas para trabalhar…

Segue o medo de que seja sempre uma pessoa por ano, um amor por temporada. Eu nunca quis isso. O que é que a gente vira no final da novela?

Me desculpem vocês, pessoas que eu traumatizei achando que eram tão duras quanto eu. Vocês fizeram o melhor que puderam. Eu fico grato por isso.

“Me avisa quando chegar em casa.”

Vamos fazer um filme?

No churrasco de formatura depois, as pessoas que realmente importavam não estavam, enquanto as que não importavam me pediam discurso. É uma vitória também sua, Mariana. Você fez meus trabalhos quando eu não podia, na maior boa vontade mesmo. Sempre serei grato por ter te conhecido. O cigarro me ajudou também. Companheiro pra suportar esse stress todo. Aliás, é bem compreensível, dado o contexto, eu não ter conseguido parar antes. Até parava, mas bastava uma briga (quase todo dia) e eu voltava. Olha essa mãe, que TUDO quer discutir e reclamar. Olha esse chefe escroto que vive para infernizar a vida de quem o cerca. E olha essa namorada que é a única pessoa que existe no mundo, mais ainda, pesquisando no Google sintomas de AIDS por preocupação, logo no início do namoro.

Ainda gosto de imaginar como seria meu nome de casado com o sobrenome da pessoa.

As lembranças inapagáveis do Rio foram meio que substituídas pelas do Peru. O lugar de refúgio mudou. A sensação interna mudou. Antes, a receptividade de um abraço incrível. Agora, o caminhar solitário na selva. É possível ser feliz sozinho.

Tenho repulsa ao famoso “eu não vou fazer por você, mas também não quero ninguém fazendo”.

Um dia ela vai perceber que existem coisas mais valiosas que sexo. Quando isso acontecer talvez seja tarde demais, e aí só sobrarão os interessados unicamente em sexo. É um tapa na própria cara.

Cinzas ao nada, somente minha presença na vida das minhas amantes é imortal.

Ficam os gostos, os saberes… Os filmes.

E que sacrifício eu fiz por ela além da paciência? Diferente de outros tempos em que eu ficava com fome.

Meu Deus! Deve ser o fim do mundo mesmo seu namorado reclamando por você querer sair sem calcinha com um short curto. Não ter mais que discutir isso, ou se vai pegar Uber sozinha tarde da noite… Ou sobre ficar secando caras bonitos na rua estando de mãos dadas comigo. Isso é paz.

As compras, promoções… hardmob!

Eu fui o primeiro a colocar foto de casal no WhatsApp. Está tudo bem ter sentimentos. Apesar de te forçarem a não. Apesar das pessoas.

A sensação era de que eu sempre estava implorando pra Alana. Pra fazer coisas pra mim, pra fazer coisas pra ela, até mesmo favores. A última dessas, recente, pra vir cuidar de mim machucado. Não veio? Blz. Vem a próxima. Eu tô precisando né… fazer o quê.

A viagem me mudou muito.

Variar entre extremos. Antes, ligar e contar a cada passo. Agora, a pessoa me ver com insônia ao lado dela na cama e simplesmente cagar pra isso, sequer perguntar se eu preciso de alguma coisa. Mariana, se eu não contasse que estava com insônia pra ela tentar me ajudar, fazia era brigar. Antes era obrigatório contar absolutamente tudo. Agora, até coisa importante não importava.

Mas, Alana, me diz uma coisa. Por que é que a gente se machucou tanto? Vem dormir comigo qualquer dia desses. Eu estou com saudades. Só dormir mesmo. Mas aprenda uma coisa: na vida, não dá pra a gente querer só a parte boa das coisas. Ou é o pacote de alegrias e sofrimento, ou nenhum dos dois.

Posso dizer uma coisa esquisita? Eu estou feliz.

Melhores 5 dias do ano: quando me contrataram no gabinete. Quando deu tudo certo na palestra sobre saúde. Quando eu fui ao subdulcina sozinho com a Alana e a gente dançou bastante. Quando andamos de caiaque. E a noite de ano novo 2017-2018.

(5 dias foi pouco, teve mais dia legal hehe)

Retrospectiva 2017 – parte 2/3

Sabe o que eu faço às vezes? Imagino a vida como um filme. Vejo uma TV dividida em duas partes, uma de cada lado. Do lado direito, mostra o Henrique. Do lado esquerdo, Alana. As nossas expectativas e intenções individuais em foco em cada uma das partes e o que o outro pensa/sente no mesmo tempo. A Produção do filme poderia mostrar, no começo, um Henrique disposto a se apaixonar, a se entregar, enquanto uma Alana preocupada com conflitos internos e sem se importar com ele. Lentamente, na cena feita em time lapse, a situação vai mudando para o contrário: um Henrique pouco se importando com ela, e ela começando a gostar dele. Ela se lembrava do dia de aniversário de ex de sei lá quanto tempo atrás, tendo passado dois dos meus aniversários comigo sem saber o meu. Como eu deveria agir diante disso? O que apareceria do lado dela da tela? Talvez eu falando e falando da Mariana? Ou da Bárbara? O que foi equivalente em mágoa? Todos nós temos algum lugar de conforto para o qual fugimos quando estamos com extremo medo. É o que eu chamo de lar. Esse lar pode ser uma cama, um quarto, uma pessoa como sua mãe, amigos. O meu lar era o Rio, era a Mariana. Nostalgia. Bem, não sei bem se nostalgia. Nostalgia é quando a gente acha que o passado foi melhor e corre pra ele. Mas, para além do achismo, e quando o passado realmente foi melhor? Enfim, esse era o meu lar. O seu lar também pode ser um sentimento, pode ser uma autoafirmação. Pode ser culpar alguém, reclamar. Quantas vezes as suas expectativas do seu lado da tela foram rompidas também? Quantas vezes, bem, eu estava morto de cansado quando você queria fazer alguma coisa…? Ou, sei lá, talvez só não estivesse a fim? Quantas vezes o nosso ciúme foi sem sentido? Quantas vezes do outro lado da tela estava uma pessoa perfeitamente fiel? Falando assim, parece que a vida, em tela dividida, é feita de desencontros, de quebras. Mas não é bem verdade. Temos também encontros, chegadas. Os destaques dos rompimentos são bem previsíveis. O que marca um céu azul são as nuvens, ainda  que poucas. Mas isso não quer dizer que não haja um céu azul, não é verdade? Mesmo com as nuvens, era bom ter alguém para dividir a vida. Era bom poder conversar com ela, poder discutir o filme juntos, poder andar com ela agarrada nas minhas costas na moto, comer um açaí. Era bom poder contar com algum apoio. Era bom ter programas dobrados, uns meus e uns dela. Era bom dirigir no final de semana pra qualquer lugar com a mão na coxa dela. Foi ótimo o dia que a gente andou de caiaque. Vez ou outra ainda vejo as fotos. A que eu mais gosto é essa aqui. Era bom saber que no final de semana eu a encontraria e teria abrigo, ainda que a semana tivesse sido um lixo. Era bom ter algum conforto. Era bom fica aqui vendo um filme no quarto e depois sair tarde da noite pra comprar um lanche, na maioria das vezes no McDonald’s. Depois voltávamos, sentávamos aqui na cama, conversávamos um pouco e dormíamos. Ontem eu refiz esse ritual, sozinho. Era bom ter o seu corpo deitado, suspenso, em cima do meu. Eu sempre te achei atraente. Foram boas as tardes de bicicleta por aí. Foi bom ter comprado a cama de casal que, nem precisa de dizer, eu comprei pra gente dormir juntos. Senti muita falta nos primeiros dias depois que a gente terminou. Senti falta da sua mão na minha, de ficar olhando nos seus olhos deitado aqui. Senti falta de te dar um leve beijinho na hora de dormir. Sinto falta da admiração, que veio vagarosamente. Sinto falta de deixá-la em casa na manhã do dia seguinte, quando o Sol nascia, e do céu laranja na volta. Sinto falta de não precisar de planejar nada pro final de semana, porque eu sabia que a gente ia se encontrar e fazer alguma coisa, qualquer coisa. Sinto falta das noites de sábado no bar, com outras pessoas ou só a gente. Parece que depois dos vários pontos negativos que eu falei, eu não gostava de estar com ela. Mas isso não é verdade. Eu adorava. Eu adorava a sua confusão, a sua bagunça interna. Eu apreciava observar e estudar isso. Eu via beleza nisso. Adorava o sorriso dela. Até mandei uma cartinha com um poema falando disso. Isso foi se desgastando com o tempo, como acontece em todo relacionamento. Esse talvez seja o maior desafio em relacionamentos longos: o desgaste. A  gente precisa de encontrar novidades sempre, senão o tédio me consome. Mas não quer dizer que eu não gostasse. O problema é que o que cresceu nela, diminuiu em mim. Foi uma questão de tempos de vida diferentes. Quando eu mais gostava dela, ela não sentia o mesmo. Depois foi o contrário. Quando ela fez aquela declaração de admiração por mim, eu já estava pensando em terminar. Os momentos eram diferentes. E quem a gente pode culpar por isso? Absolutamente ninguém. É a vida. “Tarde demais”, eu pensava. Tarde demais em me apresentar pra família, tarde demais em querer algo sério, tarde demais pra me mostrar como era seu quarto. Essa fase meio que já havia passado pra mim. Agora eu já me sentia tão machucado que não via mais sentido. Queria sair sozinho e conhecer gente nova. Queria sair com a Bárbara e conversar por horas, como fazíamos antes. Não por uma visão romântica, mas por sentir um gostinho de liberdade. Estava muito pesado pra mim. Não nesse tempo em específico, mas pela carga carregada durante todo o relacionamento. Eu me sentia injustiçado, necessitado de algo que só depois de, talvez, oito meses, estava tendo. Adorava dividir as coisas, as vitórias, os dramas. Adorava ouvir. Com o tempo, isso foi se perdendo e perdendo e perdendo. Eu queria mesmo estar com ela. Queria muito que desse certo. Eu me esforçava pra isso. Ela, perdida dentro de si, não conseguia fazer o mesmo. Aquele amor-devoção típico de mim cada vez mais ia sumindo. O Henrique poeta morria lentamente a cada decepção. Sobrava um Henrique pragmático, objetivo, focado no mundo real, não mais no universo imaginário. Não mais me reconhecia cada vez que olhava pra outra pessoa. Me via ouvindo acusações injustas e sendo alvo de frustrações que não eram de minha responsabilidade. Sempre, no fim, é um corte lento e profundo https://www.youtube.com/watch?v=Ryist_SoEeU. Sempre, no fim, eu já não aceito mais aquela pessoa em meus braços com acolhimento, e mais vejo um estranho. O toque muda, o olhar muda. Talvez eu esteja adiantando demais. Deixa eu voltar um pouco. Setembro. Aniversário da Mariana e da Cris. Sempre desejo Feliz Aniversário no mesmo momento. Mandei a mensagem pra Mariana. Ok. No celular da Cris havia uma outra foto, achei estranho. Fui olhar no Facebook e… um choque. Havia mensagens desejando paz e algo relacionado a morte. Logo pensei que aquela amiga dela havia morrido. Não. Em pouco tempo mais procurando, descobri que a própria Cris havia morrido. Foi muito pesado. Foi horrível. Era a Cris, cara. Uma das pessoas mais doces e bondosas que eu conheci na vida. Foi, de longe, o melhor relacionamento que eu já tive na vida. Foi uma das pessoas que mais me marcou. Quando alguém próximo da gente morre, alguém que já significou muito nas nossas vidas, é como se você realmente percebesse que a vida é um sopro. E que você tem que se importar com o agora. Os planos que a gente faz, a vida que a gente projeta, a pessoa com quem você quer passar o resto da sua vida, nada disso realmente existe. A única coisa que existe é o agora. Amanhã, de fato, eu posso não estar mais aqui. E nada mais importa. A vida, apesar de aparentar certa estabilidade, é o que há de mais volátil. Às vezes a gente parece reclamar, não transparecer muita satisfação e felicidade, mas imagine a sua vida sem uma coisinha que você tem agora. Imagine, Alana, a sua vida se você não tivesse a sua faculdade, a sua mãe. Eu não queria tirar nadinha da minha. Hoje, vivemos em tempos em que o apego é visto como algo prejudicial. Eu não vejo assim. O apego demonstra que você foi bom o suficiente pra criar laços com pessoas ou, ainda, que seja, com objetos. Bem ou mal, você e eu não nos esqueceremos. Bem ou mal, eu não esquecerei a Cris. Talvez eu parta amanhã, é verdade. Mas a levarei comigo, assim como ela me levou. Os desapegadores não passam de pessoas com medo de sofrer quando a relação acabar. Eu me apego sim. O que aconteceu com as pessoas que passaram pela sua vida? O que elas levaram de você? É normal sentir raiva nos fins de relacionamentos, mas depois que a poeira volta ao chão, o que te sobrou dos ex? Pelo apego, me sinto viúvo da Cris. E agradeço, mais uma vez, por ela ter passado pela minha vida. Foi lindo! Muito obrigado mesmo!

A vida deveria ter uns pitstops de tempos em tempos pra gente parar e refletir um pouco. Pra gente saber se está se tornando quem a gente quer ser. E pra gente se divertir a gozar mais da vida. Esse minha paradinha foi agora, viajando. Talvez se eu tivesse parado antes, não teria terminado com a Alana. Talvez, talvez. O único término definitivo é a morte, não uma briga qualquer. As pessoas sempre se vão. Viemos sós. Iremos sós. Na partida, sempre deixamos algum sentimento, gratidão, desprazer. A vida nos impõe sempre a derrota. Somos tão helpless em face das marés https://www.youtube.com/watch?v=iYVEik7Lvc4. As fantasias pelas quais vivemos, nossas mais variadas fés, que podem ou não ser reais, é o que nos injeta ar a cada manhã. Ninguém tem o direito de destruir as fantasias dos outros. Até as estrelas morrem, quem dirá dois pobre coitados como nós dois, desenhados pelo universo para falhar, para agir mal, para desamar. O cuidado com não machucar o outro. O dever de cafuné, de carícias, de dança de mãos sobre mãos como balé. O sutil passar de dedos sobre costas nuas, arquitetadas com uma leve penugem fio a fio, como mágica. Isso deve ser cultivado. Por isso eu trouxe as lembrancinhas do Peru pra Alana, e não cabe mais carregar mágoas. Fala aí, criança, o que quiser falar. Me xinga. Expulsa esses demônios que te atormentam, se é o que necessita. Nada disso influencia mais no amor que eu senti por você, ou no que eu ainda sinto. Nada disso retira o carinho que eu ainda tenho por você. Nada disso muda o que aconteceu entre a gente. Existem coisas muito maiores que as mágoas, que os receios. O nosso tempo é MUITO curto. Não sei se você quer morrer com esses sentimentos, mas eu não. Está tudo perdoado. E vai que eu morra amanhã? Se este texto fosse dividido em capítulos, eu chamaria esse de “A Morte da Cris e a Volatilidade dos Planos”. Não existem planos de verdade. Não existe aquele homem com quem você vai passar o resto da sua vida. Existem apenas segundos de agora. Segundos. Que passam a cada palavra que eu escrevo. A cada palavra que você lê. E as nossas escolhas estão limitadas a esses segundos. O tempo manda em nós. Estamos sempre limitados a ele, agindo à sua margem. Se você pudesse parar exatamente agora e refletir sobre todos os pontos da sua vida, o que gostaria de fazer? Na correria cotidiana, não tive um minuto sequer pra cuidar de mim, cuidar da minha cabeça, sempre inquieta, agitada, um pouco perturbada. Não naturalmente, claro. Mas diante do mundo, perturbada. Estava extremamente entediado, querendo novas experiências. E é aí que ressurge a Santa Bárbara. Sempre ela. Sempre me sugeriu que tomasse a Ayahuasca. Esperei uma época em que eu estivesse mais estável emocionalmente e decidi tomar. Há um preparo anterior, algo sério. Me surpreendi com isso. Achei que as coisas fossem mais largadas. Enfim, só aceitei tomar porque ela estava envolvida no processo. Fomos eu, ela e o Alex, num lugarzinho lá no Gama, longe pra caralho. Esta foi uma experiência inesquecível. Alana estava meio chateada – pra variar – porque eu estava indo com a Bárbara. Tive que ignorar. Qualquer contratempo iria afetar a minha sanidade e me levar para onde uma pessoa normal não gostaria de ir, apesar de não se aplicar a mim. Eu queria me conhecer. Eu queria me ver. Eu queria saber quem eu era agora. No caminho, foram os dois comentando sobre entidades e que conversavam com elas. Eu não. Eu queria saber de mim. Eu sou o centro de todas as coisas em mim. Bárbara me disse pra tomar as duas doses. Estava ali preenchendo os documentos antes da cerimônia, observando o ambiente, vivendo aquilo, exatamente aquilo. Iniciou o culto. Chegou um cara e começou a falar sobre budismo. Vergonha alheia total. O cara não sabia o que estava falando, apesar de transparecer ótimas intenções. São as regras da vida. O universalista sabe de tudo ao mesmo tempo em que não sabe de nada. Qualquer pessoa que já frequentou um centro budista de verdade se sentiria envergonhado com aquela situação. Ok. Abstrai. Tinha um cara do meu lado inconveniente pra caralho. Toda hora abrindo um livro de forma barulhenta, mexendo em cartas. Mexendo num saco plástico. Corta-tesão da porra. Odeio gente inconveniente. Finalmente chegou a hora de tomar uma dose. Eu observava a tudo e a todos pra saber como me portar sem infringir nenhuma regra ou incomodar ninguém. “Henrique num Microscópio” é o nome deste capítulo. O que se passou em 3 horas daria pra escrever um livro. Sério. Foi MUITA coisa. Primeiro eu duvidei dos efeitos do chá, pensei que já tinha usado coisa mais forte. Depois começou lentamente a vir alguma coisa. De repente meu pulmão saiu do meu corpo. Depois meu coração. Depois meu cérebro. Eles criaram bracinhos de gif, se deram as mãos e começaram a dançar em círculos. Foi extremamente prazeroso. Significava uma reconciliação de mim comigo mesmo. Era um pedido de perdão ao meu corpo, vindo do meu próprio corpo. Foi mágico. A sensação de prazer, de orgasmo mental. O mundo do chá é muito mais real que este em que escrevo. Talvez seja este o mundo das ideias. Talvez Platão estivesse certo. Depois eu virei uma substância pastosa vermelha que foi se esticando. NOTA: EU VIREI A PASTA! De verdade. A pasta foi tomando a forma de um tapete, e depois de um templo inca. A bebida já foi cultivada pelos incas? Por que eu virei um templo inca? Depois, também em reconciliação, eu lembrei do versículo bíblico que diz que “o corpo é um templo”. Era um mandamento de cuidado com o próprio ser, com o próprio corpo. Muito estresse, falta de alimentação adequada, falta de exercícios. Muitas brigas, internas e externas. Aquilo precisava de terminar. A próxima visão era eu caminhando, me distanciando, dizendo tchau à Mariana, à minha mãe, ao Ministro. Não entendi bem. Lombra. Depois vieram os caleidoscópios de gostosuras. Mais prazer. A música, me lembro bem, dizia que a ordem se sobrepõe ao caos. Lembrei daquela outra frase que diz que o universo sempre tende ao caos. Foi conflituoso. A música ia se alterando, pesando mais. Parecia o bater de telhas. Era caótica. Sulfúrica. (deu pra ver que eu gosto dessa palavra né?). Me levantei e fui ao banheiro. Tive um pouco de diarréia. Voltei ao meu assento. Contemplei o universo por 5 segundos, em pé. É inacreditável como você se sente conectado ao todo de pachamama, ao todo do universo. Você se sente conectado a quem não está lá, por meio de raízes aéreas virtuais, fantasmais. Chegou um ajudante e me tocou, pedindo para sentar, alertando que ali não poderia permanecer em pé. Falou alguma coisa pro inconveniente que toda hora mexia no livro e no saco plástico? Não. Isso foi o suficiente pra me deixar numa bad monstruosa. Por que diabos ele reclamou comigo e não com o chatão? Esse tipo de “injustiça” me deixou putasso! Ok. Sentei. Os caleidoscópios eram agora feitos de bocas bizarras com grandes lábios, dentes ameaçadores, de olhos me observando pelo eterno. Infinitos olhos me viam. Tudo me observava. Nada me deixava em paz. Me veio uma angústia extrema. A sensação de paz se esvaiu entre a triâgulos multicoloridos que giravam entre si, eternamente. O sofrimento não tem fim. A angústia não tem fim. Fechar os olhos era ruim. Abrir os olhos era terrível. O teto parecia cair a cada minuto, desmoronar. Nunca me senti tão vulnerável e sem controle na vida. Planejava como eu iria buscar a chave do carro e fugir daquele lugar. E chegou, finalmente, a hora da segunda dose. Lembrei da Bárbara, que tinha dito pra tomar as duas pra “fechar o ciclo”, e tomei. Aquele gosto forte de raiz é suavizado por pedaços de morango cedidos posteriormente à ingestão da bebida. Quase não deu tempo de sentar de novo e já veio um mal estar incisivo. Apanhei. Fui vomitar. E vomitei três litros de chá. Sério. Vomitei MUITO. Vez ou outra olhava para a Bárbara lá longe. Outras vezes via o Alex. E pensava na chave do carro e em como eu conseguiria dirigir até minha casa naquele estado débil. Frágil. Deficiente. Esquizofrênico. A mente girava em caleidoscópios de cores fortes e ácidas. Cores cítricas. Vomitei mais. A música me empurrava, literalmente. Me socava aos lados. Iniciou aí uma síndrome do pânico/mania de perseguição, como se todos quisessem me matar. Me veio o estalo de desconfiança da Bárbara. Achava que todos queriam me matar, que afiavam estacas de madeira flamejante para fincar em meu coração. Ela, mais parecia uma bruxa, fumando um cachimbo ancestral, com um capuz. E um maluco próximo a ela fazia movimentos triangulares com o braço direito, durante toda a noite. Me senti numa cracolândia, cercado por drogados; eu que valorizava tanto a racionalidade. Que diabos eu fui fazer ali? Fechava os olhos e era pior. Vinham centopeias nojentas em caleidoscópio, besouros, insetos dos mais repugnantes, piores que os de Kafka. Piores que Cthulhu. Lentamente fui retormando a consciência sóbria. Fui me percebendo, notando que aquilo era apenas uma droga. A paz voltando. Eu sentia. Observei algumas pessoas sentadas à fogueira, sentei numa cadeira na roda e cruzei as pernas cofortavelmente. “Eu estou pegando pesado demais com a Alana, coitada. Queria ligar pra ela pra pedir desculpas. E a minha mãe, coitada. Tenho a tratado muito mal. Cadê a Alana?”. Era tudo o que eu pensava. Tudo o que eu queria era chegar em casa e tê-la aqui me esperando pra dormir junto. Tudo o que eu queria. Conforto. Eu via conforto nela. Chegou um cara, me tocou novamente, e me disse que não podia ficar de pernas cruzadas na fogueira. Meu Deus! Que raiva. Por que não me deixam em paz? Tinha um cara exatamente do meu lado, também sentado, com as pernas cruzadas! De novo a injustiça. Fiquei puto de novo, mas já percebendo para onde aquilo havia me levado anteriormente. A paz que se foi não foi a do falador, mas a minha. Eu deixaria novamente ela ir embora? Os efeitos tóxicos diminuíram. Sobreveio-me uma tranquilidade estóica, uma compreensão superior do universo, etérea, de conexão. Difícil de explicar a sensação. Acabou a cerimônia. Lanchamos pão com proteína de soja. Estava deliciosa. Bárbara me apresentou sua nova namorada. Depois fomos ao carro nós três. Tudo o que eu queria era voltar pra casa. Alana. Mas era impossível. No culto chegou um momento em que eu estava tão frágil que eu já tinha aceitado a morte como certa. Era impossível sobreviver na volta pra casa. Tive que dormir no Alex, com a Bárbara e um gato. Conversamos um pouco e dormimos. Conversei antes um pouco com a Alana pelo celular, apenas informando que estava bem. Esse é um dos momentos em que a tela do filme deve ser dividia em duas. Do lado esquerdo, eu apenas querendo o conforto da Alana. Do outro, ela me pensando dormindo com a Bárbara, provavelmente imaginando carícias e risos e felicidades. O espectador pensando: “olha esse casal que não se acerta, gente! Ele só queria um pouco de colo dela e ela chateada.” Imagina quantas vezes esse conflito de expectativas aconteceu. Na manhã seguinte eu voltei pra casa. Via o mundo de uma forma diferente. Via o meu corpo de uma forma mais sagrada, ungida. Dormi um pouco e fui almoçar na casa da minha tia com a Alana. Acabamos brigando quando eu falei que tinha visto a Mariana no chá. Eu precisava de conforto. Eu não tive conforto. Eu tive violência. Que decepção. Não sei se antes ou depois, mas tem a história do imortal Pedro, aquele pseudo-ex comedor que tem namorada e que foi a causa da Alana ter mentido pra mim. Todas as vezes em que eu pensei em voltar eu lembrei dessa história. E a pessoa ao invés de assumir que mentiu, coloca a culpa em mim por ter descoberto a mentira. Bem baixo né? Nesse tempo, como eu disse, Alana já estava mais amorzinho. O relacionamento, se tivesse começado assim, estaria ótimo. Sei lá. Ele deve ser especial, pra fazer uma pessoa mentir pro namorado dela. Que fique com ele. Realmente eu acredito que ela não tenha me traído fisicamente, de fato, nem nada. Mas o fato de ter mentido, isso já significou uma traição. Se eu já descofiava antes, a partir daí eu pensei em me vingar de diversas formas. O Tinder estava mais ativo. Conheci algumas meninas, mas acabei não saindo de conversas. Nem tinha coragem. Nem de sair e menos ainda de ficar com ninguém. A própria consciência é o próprio limite. Siempre tan culpable de especular sobre la certeza de nuestra lealtad. https://www.youtube.com/watch?v=ShhJvb_fyGI. Primeiro, foi um pouco o medo de me sentir trocado. Segundo foi um pouco o saber da insatisfação sexual dela. Terceiro, foi mais uma mentira que eu encontrei. A partir daí, eu realmente não sei por que continuei. Sinceramente não sei. Era mais ou menos em outubro. Achei que ela ainda precisasse de mim na vida dela. Sei lá. Outro dia, não nesse, a gente terminou. Ela foi dois dias depois atrás dele. Ela queria. Eu fiquei puto, óbvio. Podia ter ido atrás de quem quisesse, não dele. Não entra na minha cabeça uma pessoa que declaradamente sente atração por um ex terminar com o atual e dois dias depois estar atrás do cara, pra depois falar que não queria nada. Espera. Ficou confuso. Ela dizia que não queria nada com ele, que não tinha ido atrás dele antes. Mas dois dias depois que terminou foi atrás SABENDO QUE ELE QUERIA. Eu poderia ter aguentado tudo, sabe…? Tudo. Mas isso não. Foi o cúmulo da ausência de tato, falta de sensibilidade. Mas, já que quando se está solteiro, tudo se pode… imagine que eu tivesse ido dar em cima da Yngrid dois dias depois de terminar. Tudo pode? Não. Falta de caráter. A equipe dos comedores de puta do trabalho ganhou mais um componente: eu. E eu já estava tanto cagando pra Alana que nem excluía conversa do celular nem nada. Se achasse alguma coisa que não gostasse depois, foda-se. Eu não me reconhecia mais. Me questionava sobre quem eu era todas as manhãs. Me perguntava o que eu estava fazendo da minha vida, quem eu tinha me tornado enquanto namorado e enquanto pessoa. Eu nem fazia questão de sexo. Eu sempre fui muito mais de me conectar emocionalmente às pessoas. Sexo vinha como complemento, e nada mais. Ainda assim ainda tentei manter por mais um tempo o relacionamento, depois. Tentei fingir que não foi algo crucial. Tentei confiar de novo. Mas não dava. Eu queria muito me vingar. Uma dessas meninas do Tinder me adicionou no Whatsapp e começamos a conversar. Todos os dias em pensava em sair com essa menina. Todas as vezes em que a Alana demorava um minuto para responder a mensagem eu me desesperava. Como é que se fica com alguém em que não se confia? Bem, pra resolver isso era bem simples. Era só não ter respondido a maldita mensagem. Exatamente da mesma forma como fez várias vezes com várias pessoas. “Eu não sei dizer não”. Por favor né. Evolua. Não soube dizer não pra ele e me forçou a dizer não pra você. Eu gostava de você, eu me preocupava com você. E tudo foi destruído por uma fodinha com um qualquer que não tá nem aí se você estudou ou não, se você foi bem nas provas ou não, se você está bem ou não, mas se preocupa em olhar a sua bunda. No fim, a gente repete algumas atitudes de nosso costume. Não que sejamos vítimas. Mas nossa autonomia é limitada. Não há liberdade ampla. Sim, ciumento. Antes eu nem sentia ciúmes: sinal de que eu não gostava. Se eu gosto, eu sinto ciúmes. Simples assim. Mas nesse caso com toda a razão. Eu não acho normal essa situação e nunca vou achar. Foi bem ridículo. Acabei nem ficando com a menina lá. Nem a vingança me movia mais. Não tinha mais vontade de nada. Além do mais, ficou mais claro do que nunca que pra mim é impossível desvincular amor de sexo. Enquanto eu estava com a Alana, era IMPOSSÍVEL me ver com outra pessoa. Talvez por isso a ideia do ménage me destruiu tanto. Não queria mais viver. Estava de novo no piloto automático do começo do texto. Meu estômago doía horrores. Sentia algumas explosões dentro do meu tórax. Achei que ia morrer. De verdade. E no outro dia ainda tinha que trabalhar. Tinha novamente que suportar. Suportar e suportar. “A vida de um sobrevivente” é o nome do capítulo. Ou “A sobrevida de um vivente”. Um dia acordei no inferno. Não fui trabalhar e fui ao hospital. Não havia nada. Alana foi me acompanhar. A causa da enfermidade foi. É como estar com a garganta inflamada e ir ao médico com as bactérias. Me via de novo entrando naquele abismo que foi terminar com a Mariana e decidi que não mais viveria aquilo. Tentei o mais rápido possível sumir. Bloquear em tudo. Fingir que não existo. Pegar minhas coisas de volta. Foi difícil. Árduo. Nos primeiros finais de semana, solitário em casa, ficava aqui pensando nela. Mas era certeza de que tinha sido melhor assim. Doía vê-la triste, deprimida. Eu sabia, eu sei do seu momento. Eu sempre respeitei isso, em você e em qualquer pessoa. Mas eu tinha chegado ao meu limite. Em pouco tempo, era previsível, já nem conseguiria mais acordar pra trabalhar. Imagina se eu perco meu emprego…? Não, gente. Um relacionamento não deveria ser assim. E se eu soubesse que algo mudaria, que eu poderia passar a confiar nela, eu voltaria. Eu gostava dela. Eu ainda gosto dela. Comprei um Kindle e dei pra ela, pra estudar, como incentivo. Foi difícil presentear também, porque ela impunha dificuldades pra tudo. Tudo era difícil. Principalmente ajudar em alguma coisa. Bárbara sempre alertava que “só se ajuda quem quer ser ajudado”. Era também um presente de despedida, uma lembrança de mim, um pedaço de Henrique que ficaria lá com ela, onde quer que fosse. Ela quis me devolvê-lo depois. Era um calvário. O calvário de estar com você, caminhando sob pedras e chicotadas de palavras a cada dia, mesmo carregando minha própria cruz. Primeiro, ela parecia não se achar merecedora da felicidade e da paz. Demonstrou trezentas vezes que não queria estar comigo. Depois não queria me largar. Não por gostar, eu acho. Mas por apego. E, bem, essa é a história da minha vida. A pessoa está comigo e fica me tratando mal. Até um dia eu querer ir embora e ela passar a me tratar bem pra eu ficar. Não só em namoros. O Ministro me trata assim. Minha mãe me trata assim. Esse foi um tempo de luto. Os mini cactos ainda estão aqui na porta do quarto. Quanto tempo passamos realmente juntos? Quantas vezes comemoramos por estarmos um com o outro? Quantas memórias boas ela guardou de mim? Além das reflexões, foi tempo de encontrar refúgio dentro de mim. Foi sofrido. Bem, nem tanto. As dores de estômago magicamente sumiram. Voltei a assistir minhas comédias românticas nos sábados, como sempre fiz, como gosto de fazer. Vez ou outra conversava com alguém, saía pra um bar. Voltei pra academia. Saía no sábado à tarde sozinho pra comer um sushi e andar de bicicleta. Estava leve. Solto. Com as minhas vontades respeitadas, os meus horários, os meus quereres. Sem ninguém brigando comigo por nada. Ainda assim, todas as vezes em que eu me despeço de algum lugar, eu morro um pouco. Se eu me despeço de alguém, eu morro um muito. Mas entre passar saudade e passar raiva, eu preferi a saudade. Aqueles planos fofos que eu tinha feito, projetado pra ela, eles morrerão comigo. São muitas verdades solitárias que ninguém além dos vermes devoradores de cadáveres terá contato. Isso é triste, não? Eu tinha feito um jogo tipo uma caça ao tesouro pra pedi-la em namoro. Tinha ficado lindo. Mas nunca aconteceu. E os planos dela também, de coisas pra mim, que nunca aconteceram. Um pouco triste. Começa então um outro capítulo: “Bupropiona, drogas e o prazer fácil”. Aproveitando da leveza, decidi realmente parar de fumar. Fiz o tratamento. E… eu consegui. Estive por dois meses sem colocar um cigarro na boca. É um caminho largo. As drogas, de início, significam um prazer fácil, rápido e acessível, mais ainda o cigarro. Acontece que todos precisamos de prazer na vida. Sem o cigarro, fui obrigado a encontrar outras formas de prazer na vida. No começo, a força sexual parecia me dominar. Me masturbava diversas vezes ao dia. Era, em substituição à nicotina, um prazer solitário e instantâneo. Ia aos encontros do grupo antitabagista, conversava com os outros fumantes. Foi uma vitória conjunta. Disse Bárbara, surpresa, que achou que eu fosse morrer fumando. Não só ela. Todo mundo. Inclusive eu. É um pensamento comum e previsível. Agora já visualizava algum futuro, que antes eu não via. A nostalgia foi dando espaço para algo novo. Queria viajar, conhecer novos lugares, novas pessoas, novas formas de viver e de sentir. A forma que eu encontrei de fazê-lo foi viajando. Sozinho. Comecei a planejar para onde iria. Tinha saído o décimo-terceiro e eu tinha já uma graninha na poupança. O Ministro me deu um mês de férias. Era tudo o que eu precisava. Decidi fazer Bolívia, Chile, Peru e Argentina. Acabei não conseguindo ir para a Argentina por falta de tempo e por amor demais ao Peru. Sem a Alana, um dia saí com o Marcelo. Ele estava visivelmente desequilibrado. Eu, completamente sóbrio, sem beber ou fumar ou fazer sexo desde a Alana, um mês. Fomos a um showzinho cover de Guns. Tava meio hardrock, sei lá. Quis ir. Ele havia passado o dia todo bebendo e estava um pé no saco. Eu, seguro dentro de mim mesmo. Estava estável como há muito tempo não me via. O término do namoro foi extremamente conturbado. Alana parecia não aceitar bem. Me vi em situações que eu nunca havia me imaginado… Um showzinho (dos ruins) na rua, um desconhecido achando que eu tinha batido nela. Ela fazendo fuzuê no carro da minha irmã. À época me causou um puta estranhamento… a violência. Eu nunca tive que lidar com isso nenhuma vez. Mas eu entendo que nenhum sentimento é inútil ou que deva ser sublimado ou suprimido. Todos são úteis, em equilíbrio, claro. Ela deve ter precisado daquela emoção, e de ter me xingado e culpado. É como se vê o mundo. Não há sequer uma pessoa no mundo dotada de apenas virtudes. Isso, além de impossível, seria prejudicial à própria pessoa. Para pra pensar um segundinho. O que a gente têm em comum? Sobre que assuntos a gente pode conversar? Em que ponto a gente é um casal ideal e invejável? Quais são os nossos pontos positivos? Qual é o motivo desse apego todo? Talvez a fuga conjunta de uma solidão individual nos uniu. O medo, a negação. A morte depressiva a cada respirar. A vontade de ter alguém pra passar o tempo, não a vida. Em todo mundo  gente tem que aguentar uma ou outra coisinha. Nela, eu tinha que aguentar “não pode gozar dentro nem com camisinha. Não vou tomar anticoncepcional nunca. Não pode gozar antes de mim nunca. Não pode broxar. Não pode gozar na boca. Tem que querer sexo toda vez eu quiser. Não pode fazer sexo sem camisinha. Se eu quiser sair sozinha eu posso, você não. Eu posso falar com ex que quer me comer, você não pode ter amigas. Você tem que pagar as coisas pra mim, eu não posso te pagar nada (mas posso gastar metade do meu salário numa única peça de roupa). Eu posso dar pitaco no que você veste, mas você não pode falar nada se eu quiser sair com short curto sem calcinha porque é machismo. Tem que me aguentar quase todo dia falando idiotices inconsequentes só pra te machucar e não pode ficar triste. Aliás, não pode nunca ficar triste. Tem que ter assunto pra conversar comigo sempre, e sempre tem que tomar a iniciativa.” Até eu perceber que poderia estar com uma pessoa sem essas milhares de exigências. Winnie, por exemplo, tão livre que nunca me pediu nada, nunca se preocupou com nada. O que mais me incomoda nesse chamar de machista é que demonstra uma extrema incompreensão. Demonstra que a pessoa escolheu, de novo, o caminho mais fácil. As pessoas mais importantes da minha vida foram mulheres. As pessoas que eu mais respeitei na minha vida foram mulheres. Em ordem: Raysa, Jussara, Mina, Dra. Luciana, Ju Brum, Cris, Mariana, Bárbara. Minha mãe, óbvio. Note que o personagem principal dos meus textos sempre é mulher. Homem só se for delicado, e mesmo assim fica em segundo plano. Mas enfim, é típico de quem nunca se importou em me ler de verdade ou em ler meus textos. “Ah, você não deixa um cara comer sua namorada. Que possessivo machista!” Vai se foder!

Retrospectiva 2017 – parte 1/3

O texto deve ser lido ao som dessas três músicas.

  1. The End – Pearl Jam https://www.youtube.com/watch?v=yb9-jQENDtg
  2. Afraid – The Neighbourhood https://www.youtube.com/watch?v=LILL0AV0938
  3. Society – Eddie Vedder https://www.youtube.com/watch?v=lm8oxC24QZc

UM POUCO MAIS TARDE DO QUE O NORMAL PORQUE, BEM, O ANO NÃO TERIA TERMINADO ANTES DA VIAGEM. MAS LÁ VAI, COMO DE COSTUME. (ASSIM COMO A RETROSPECTIVA 2015 E AO CONTRÁRIO DA RETROSPECTIVA 2016, DESSA VEZ VAI COM BASTANTE DETALHE)

O ano começou numa festa no Lago Norte, que a princípio era open bar. Fomos eu, Marcos, Alyne e um pessoal dela. Achei meio cara a festa, uns R$ 100,00. Achei uma boa ideia porque daria pra ver uma boa queima de fogos na beira do lago, então eu fui. Tinha uma fila gigantesca na porta, a festa parecia que ia bombar, e realmente bombou. Mas foi fraquinha que só de bebida. O open bar acabou tipo 1 da manhã. Eu devia estar sem fumar há umas duas semanas, só no adesivo e força de vontade. É comum eu fumar menos nos finais de ano. É como que uma última oportunidade para cumprir a promessa repetida de todos os anos novos: parar de fumar, aí sempre tento com mais força pra não encerrar o ano frustrado. Meu nariz sangrou na festa, fiquei parecendo um cheirador de pó limpando o nariz no banheiro. Foi palha. No final das contas não deu pra ver a queima de fogos direito e só tinha LGBT na festa. Palhinha que só. Viramos a noite lá e voltamos de manhã de uber com meu tio. Poucos dias antes a Alana tinha reaparecido pra perguntar o que eu ia fazer no Ano Novo, daquele jeito dela, interessada em algo porque os outros esquemas muito provavelmente não tinham dado certo, ou porque queria uma outra opção, ou uma última opção extra, como era costume dela. A gente não mais ficava. Ela tinha ido viajar e simplesmente desapareceu. Eu já estava meio que ficando com a Catarina, já gostava dela. O olhar vai mudando e mudando…

Os medos… era o último semestre da faculdade. IDP. O amado IDP. Eu ainda fazia estágio no MPT com o Daniel, gente boa pra caralho. Baiano de bom humor. Razoável. Inteligente. Me amedrontava o aproximar do fim de uma jornada de 6 anos de universitário. Eu não tinha a mínima ideia do que fazer quando acabasse. Não consegui parar de fumar. Meio óbvio. E de pensar que acabar a faculdade implicaria em acabar o estágio e não ter dinheiro pra comprar o cigarro me atormentava. Mais que isso, não conseguir dinheiro pra comprar minha Sensodyne pró-esmalte era o meu maior pesadelo. Eu figurava esse futuro pós-faculdade, horrível. Não tinha absolutamente nada de dinheiro sequer pra pagar pra tirar a OAB, por mais que já tivesse sido aprovado. Dinheiro. Esse era o maior problema. Todas as noites eu ia dormir meio que pensando nisso. Tentando encontrar uma saída. Vez ou outra saía prum bar, com o Marcelo, Bárbara, os meninos ou Catarina. Linda ela. Gostava dela. Nem sei bem o que aconteceu nessa relação. Talvez, de tamanha empatia, ela não quisesse me envolver em seus problemas de saúde, tantos que passava semanas internada… Outro gesto de grandiosidade. No dia da premiação pela aprovação na OAB, no IDP, em que ela sabia que minha família iria, juntamente com Marcos, Bruno e Marcelo, ela nem apareceu. Talvez não quisesse se envolver demais. Estava tudo estranho. Mas isso meio que se repetiu agora de novo com a Naomi, a Terceira Holandesa (que eu vou falar mais tarde no texto). Juntos, conversávamos por horas e horas. Separados, era como se não existíssemos um para o outro. Bem, na verdade, como se eu não existisse pra ela. Eu nunca esqueço quem eu gosto.

Carnaval com chuva. Péssimo. Fomos eu e Bruno sozinhos no carro pra encontrar o resto do pessoal no bloco que virou tradição nossa: Babydoll de Nylon. Chegando lá foi bem bosta. A gente nem se vestiu nem nada. Uma chuva da porra (e a gente chegou bem tarde). Ficamos meia-horinha lá e saímos. Encontramos de novo Marcos e Alyne e voltamos pra Sobradinho. (Mas que relato mais jornalístico, Henrique! Tudo está tão objetivo. Cadê a poesia?).

Início do semestre letivo do IDP. Estava com MUITO medo. Foi um momento em que me pareceu que absolutamente tudo na minha vida estava dando errado. Muita pressão. É uma fase terrível essa. Não só pra mim, óbvio, mas pra todo universitário. E a monografia? E A MONOGRAFIA? Acho que foi nessa época que eu fiz a prova pra Oficial da PMDF. Sem fé alguma na dissertativa, apesar de ter ido bem na objetiva. Estava estudando bem. Nas férias, até as 4 da manhã todos os dias. No IDP, 5 matérias, ou 6… não lembro direito. Alguém do Gabinete do Ministro Buzzi me liga, me convidando pra fazer uma entrevista lá – havia surgido uma vaga. O salário era bom, mas era emprego de verdade, não mais estágios. Foi uma injeção de ânimo. Era o que eu precisava. Acabei sendo selecionado. Foi uma puta vitória. Era a garantia de que eu teria o mínimo de dinheiro necessário pra construir alguma coisa posterior. Conseguir pagar a OAB, ou juntar um pouco pra estudar depois pra outra coisa… não sei. Mas eu o teria. Passei uma tensão do caralho pra me contratarem que quase o Ministro teve que intervir… foi foda. Quase vi a “vitória” escorrendo entre os dedos. Mas no fim deu tudo certo. Talvez em outros tempos o Henrique poeta conseguiria descrever como foi difícil essa fase inicial de trabalho mais último semestre de faculdade. Acordar cedo, trabalhar o dia todo no inferno, ser testado a cada segundo por uma pessoa odiosa, num ambiente hostil, cercado por gente idiota que se acha. Pra piorar, eu estava ainda devendo uma matéria de Sociologia do primeiro semestre, daquelas que o professor quer mostrar serviço e faz chamada pontualmente todos os dias e cobra trabalhinhos de ensino médio toda semana, valendo nota. Eu saía do trabalho tarde e corria extremamente cansado pra faculdade. Por diversas vezes encostei a cabeça na mesa e dormi na sala de aula. Uma vez até tive um daqueles sonhos em que a gente está caindo e toma um susto, sabe, bem no meio da aula. Vergonhoso. Dificuldade. Esta é a palavra. As humilhações diárias, sofridas por mim ou por meus colegas de trabalho. Pelos garçons, pelo pessoal da limpeza. A necessidade de provar seu valor. Nesse tempo a Alana reapareceu. Não me lembro bem se ainda estava de rolo com a Catarina, mas acabei me deixando levar de novo pela Alana. Nesse tempo, encontrar com ela em alguns dias era a única alegria que eu tinha na vida. Não. Não é exagero. Era o único tecido de pelúcia em meio às agulhas da vida. Era o único carinho que eu tinha, a única coisa que me fazia sorrir, minimamente. Estava esgotado. Me sentia esgotado. Houve dias em que eu vivi no piloto automático desde o acordar até o dormir. E no dia seguinte a mesma coisa. E de novo. Sucessivas vezes. Curioso que eu não fiquei depressivo. Hoje atribuo isso ao fato de não ter absolutamente nenhum tempo para nada. Nem música mais eu ouvia. Fui obrigado, forçado, a deixar de lado a literatura, os filmes, pra me dedicar à vida profissional. Os efeitos disso eu só pude notar agora ao final do ano. Acabei me tornando insensível, indelicado, ultra-rígido, direto. Sem equilíbrio. O que antes jorrava tornou-se seco. Por isso mencionei antes o Henrique poeta. A Alana, inclusive, contribuiu muito pra isso, mas fica pra parte posterior do texto. Foi um ano em que eu não escrevi sequer UM texto literário relevante. Aliás, não sei se neste ano ou no final do ano passado, saiu um poeminha pra Bárbara. Está aqui.  E o quê mais? Nadinha. Eu tinha a porra de um celular de bosta da Lenovo. Meu primeiro objetivo trabalhando era comprar um outro bom. (Frase aleatória jogada aqui). Parece tudo reclamação até aqui né? Cara, eu não sei como eu sobrevivi a isso. Um certo dia meu tio mandou uma mensagem falando que eu tinha sido aprovado no concurso de Oficial da PMDF. 12 mil de salário. Mas tinha um teste físico com natação. Eu não nado nada. E tinha duas semanas pra conseguir me tornar um Michael Phelps (afinal, tinha tempo e distância a percorrer). Acordava então mais cedo ainda pra ir nadar, nadava antes do trabalho com umas dicas do Renato, depois ia trabalhar, aguentar as lamentações de um ser emocionalmente perturbado. Se eu acreditasse em almas, diria que aquela carrega grilhões de mil demônios. O tempo foi passando e eu fui meio que aprendendo a lidar um pouco com isso, com ele, com o tudo. Mas até lá tive umas 30 crises. Numa delas, estava aqui em casa com a Alana e pedi pra ela pegar um remédio pra mim. Ela fez aquela cara de “você está abusando de mim” e não foi. Eu tinha que insistir, implorar, por um remédio. Eu estava um lixo por dentro. Em outros textos eu chamado de vórtice sulfúrico. O pior. Que absurdo! Minhas mãos, meu corpo todo era terremoto. Nada estava controlado, nada estava equilibrado. Deitei um pouco na cama, levando as mãos à cabeça, tentando me sentir, me assegurar de que eu ainda estava aqui, vivo. E ainda tinha que escrever a monografia. A monografia! Meu Deus! Não foi a única vez que ela agiu assim comigo. Essa foi só a primeira. Isso em muito contribuiu com a futura insensibilidade que depois me alcançou. Aguentar isso tudo foi um esforço desumano. E eu não posso falar que tive algum mérito em ter suportado. Há algumas coisas na vida que simplesmente acontecem. Eu, hoje, estou aqui. Sobrevivi. Mas poderia muito bem não ter sobrevivido. Nós não devíamos ser submetidos a esses árduos testes de sobrevivência. Me lançaram em terras desérticas, com uma garrafa vazia, e me deram apenas a opção de beber minha própria urina pra sobreviver. Cá estou. Não inteiro mais. Mas cá estou. A pressão das matérias da faculdade, da monografia, do concurso, da minha mãe, a todo tempo me cobrando dinheiro, me dizendo que eu não “dava um real pra ajudar em casa” (em tempos em que eu dei bastante dinheiro), chefe insuportável, sem um pingo de respeito pelo próximo, namorada que eu não sei se era namorada ou não, que eu tinha que perguntar toda vez que ela saía sozinha se ela tinha ficado com alguém, já com medo da resposta (e que, bem, diversas vezes fazia questão de sair sozinha…). Sofrimento foi tudo o que eu conheci. Como triturar esses insumos e verter em algodão doce? É muito compreensível que eu não tenha lá conseguido bem. Consegui um pouquinho. Nesse tempo eu ainda estava um amorzinho com a Alana. Ainda dava toda a atenção possível a ela, escutava atenciosamente seus problemas, tentava apresentar soluções. Tem até um elogio AQUI. É sobre entrega. Eu me entreguei, não rápido, mas em tempo. Famoso o dia em que ela disse que ia fazer uma prova pro estágio do MPF. Dei super apoio. Ver o crescimento das pessoas que me cercam. Tá aí uma coisa que eu gosto. Mesmo com todo esse furacão passando pela minha vida, eu tentei ajudá-la. Poderiam me chamar de trouxa, ou sei lá… Mas é como eu sempre sou com todo mundo a princípio. Por algumas vezes saí da faculdade tarde da noite, depois de ter trabalhado o dia inteiro (e dormido um pouco na aula até cair da cadeira e ficar com vergonha), e fui até a casa dela pra dar umas aulinhas de legislação do MP. Mais uma atividade no dia. Menos um pouquinho de Henrique pra mim. Foi bem sacrificante, bem danoso. Mas era para um bem maior: ajudar no crescimento dela. Eu acreditava no potencial dela. Acreditava em sua evolução. Acreditava na sua intligência. Acima de tudo, acreditava que não estaria gastando meu tempo à toa. Havia um trato (que, por óbvio, não era unilateral da minha parte). Eu ensinaria a ela esta parte do conteúdo da prova e ela estudaria outra parte, português. Foi a primeira vez na minha vida em que eu fiz um favor a alguém que me tratava como se ela estivesse me fazendo um favor. Confuso? Bem, é como se eu fosse dar carona pra alguém e ela agisse como se estivesse me dando carona. Tudo no tempo dela, do jeito que ela quer. É assim: você está fazendo a gentileza e a pessoa ainda dificulta pra você. Aliás, essa também foi apenas a primeira vez em que isso aconteceu. Alana, gracinha, gosta de dificultar as coisas não apenas pra ela, mas pra todas as pessoas que a cercam. Eu sinceramente só queria ajudar. Se não quisesse fazer a porra da prova era só falar. A prova não era pra mim, o estágio não era pra mim, o salário não era pra mim. Mas não, quis gastar meu tempo (que nessa época era valiosíssimo e extremamente sacrificante) pra não estudar nadinha de português. Há um problema gravíssimo nessa geração, em especial na classe média-baixa. Eles acham erros no sistema pra justificar suas próprias aberrações. Exaltam e fazem graça de procrastinação e depressão, como se fossem temas divertidos e virtuosos. NÃO. Passar todas as suas tardes vendo fotos da vida alheia em redes sociais pra mim mais se aproxima de uma doença que de virtude. Eu cumpri a minha parte do trato. Eu fui nos dias em que eu falei que iria, mesmo em um destes dias tendo ouvido dela que “não precisa de vir coisa nenhuma se for pra ficar me jogando na cara que eu não estudei”. Querida, nunca foi pra mim. Eu não sou pai nem mãe de ninguém. Estava fazendo um mero favor e, diga-se de passagem, para uma pessoa que se negou a pegar um remédio pra mim.

Na verdade, o termo que define melhor essa relação é “tarde demais”. Praticamente tudo entre a gente ocorreu tarde demais, não é injusto dizer que da parte dela. Bem, se fosse por agora, pelos últimos tempos, mais próximo de quando a gente terminou, certeza de que ela teria agido diferente. Seria mais honesto com nós dois. Seria menos cansativo. Fato é que ela não fez a parte dela. Chegando próximo à data da prova, ela disse que não iria sequer comparecer ao local da prova. Meu Deus. Quer dizer então que as vezes que eu fui lá, que eu me preparei pra falar sobre o conteúdo… foi tudo inútil? Como, Henrique? Pra mim, é complicadíssimo estar com alguém e não me preocupar com o futuro dela. Pra Alana, foi esse tratamento que ela recebeu dos anteriores. Por quê? Pode doer o que for, mas a resposta, pra mim, é muito simples. Só eu que me importei com ela enquanto pessoa, não enquanto um pedaço de carne pra fazer sexo. Eu a respeitava (isso foi se perdendo pouco a pouco, mas esse é outro ponto). Era engraçada a forma como as outras pessoas a tratavam, como que a diminuindo e diminuindo, sem respeitar suas opiniões e posicionamentos. Paulatinamente eu fui entendo o porquê. Enfim, nunca conseguirei estar com alguém sem me preocupar com o crescimento dela. Com a Alana eu meio que era obrigado a não me preocupar. Ela não queria que eu me preocupasse. E eu acabei me cansando de insistir também. O respeito foi indo e indo e indo. A cada carona que eu ia dar pra ela e ela me atrasava. Depois se eu me atrasasse 3 minutos que fossem, já ficava de cara feia, reclamando. Era desleal comigo. Passando por esse turbilhão de navalhas e ter que aguentar mais uma, ao invés de um sopro cuidadoso nas feridas. Carinho não existia. Não andava de mãos dadas. Não conversava sobre assuntos que eu considerava interessantes. Não mostrava poemas. Não nada pra mim. As constantes reclamações sobre sexo também foram pouco a pouco me tirando a vontade de satisfazê-la, me tirando a preocupação em fazê-la bem. Havia um tópico que sempre me incomodava: gozar rápido. Até agora, mesmo depois de terminado há um tempo, me incomoda, sabe…? Tem aquele negócio de todo mundo ser dono da verdade, e de que o inferno sempre são os outros. Mas como tudo em mim, é sobre o meta-assunto, não sobre o assunto em si. Eu reparo muito nas entrelinhas da conversa, mais até do que na conversa propriamente dita. Todas as vezes em que chegávamos nesse assunto eu pensava “caramba, como sexo é importante pra ela”. E realmente era. Conversava eu outro dia com o Marcos sobre que tipo de assunto te conecta às pessoas. A mim, o sofrimento, principalmente o afetivo. Eu adoro ouvir histórias de amor, românticas… os Tristãos e Isoldas, os Romeus e Julietas da vida real. Sempre gostei. Ela, ela gosta de falar sobre sexo. É um assunto que meio que a facina, a faz querer se manifestar. Tanto que não comum se comunicar com os meninos, todas as vezes que o assunto era sexo, já tinha uma opinião pronta, como no caso do ménage. Outra entrelinha desse tópico de gozar rápido era induzir que eu não satisfazia as outras namoradas que eu tive. Ela sempre dizia: “Mas olha as pesquisas – não sei quantos porcento das mulheres não gozam nas relações. Os homens são tudo egoístas!”. Sinceramente, se você tiver acesso a este texto um dia, por favor, tenha a consciência de não repetir esse jargão pra um futuro namorado seu. Você não sabe. Você nunca soube das minhas outras relações. Você não sabe. Simples assim. É só uma forma de ofensa gratuita. Aliás, mais uma das várias que você costuma fazer quando não consegue o que quer. Assim como o “eu que não quero contato com uma pessoa pobre de espírito como você”. Desnecessário, não acha? Sei lá, parecia  também, nas entrelinhas, que ela tinha sido “abusada” por homens egoístas muitas vezes, pra estar com essa impressão. Isso só indica, mais uma vez, que não te consideraram como pessoa, mas como alguém para gozar dentro e sair fora. Enfim, vamos seguir em frente senão eu fico falando disso aqui mais meia-hora. (e dá pra ver que não é um ponto curado né? Dá pra ver uma raivinha aqui, que eu não pretendo cultivar).

Que puta textão, hein. Geeente.

Nesse tempo eu já tinha algum dinheiro. Isso foi novidade na minha vida, um novo capítulo. A primeira coisa que eu comprei foi um celular com uma mega bateria. LG X Power. Adorei o telefone. Podia ir ao mercado e comprar chocolate aos kgs. Comprava frutas e almoçava fora constantemente. Que vitória. Acabei engordando um pouco, como é a vida, né? Normal. Trabalhando sentado o dia inteiro… normal. Trabalhar é um câmbio de liberdade por liberdade. Você se compromete a trocar seu tempo preso por outro tempo livre. Pude comprar o meu home theater e meu datashow. Meu quarto virou um cineminha. Agora mesmo eu estou vendo uns clipes aqui. Foi bem legal. Quando chegou o datashow eu deitei aqui no chão e fiquei vendo uns vídeos, apreciando. Trabalhar foi bom (claro, nessa hora hehe nas outras não). O dinheiro não tinha lá tanto gosto de liberdade, mas trazia alguma consigo. Meu aniversário foi como de costume. Amigos mais próximos na casa de uma tia, com pizzas e algumas bebidinhas. Bem simples e decidido de última hora. A diferença dessa vez é que eu pude comprar as pizzas pra geral com o MEU dinheiro. Isso foi muito legal pra mim. Pela primeira vez em, sei lá, seis ou sete anos, a Mariana não foi a primeira a me desejar feliz aniversário. Fez falta. Também fez falta a Mina, que eu já nem sei mais se ainda está viva. Alana estava lá de novo, pelo segundo aniversário consecutivo e, novamente, sem me dar nem um cartãozinho escrito Feliz Aniversário. Dessa vez ela foi a primeira a me desejar feliz aniversário. As mudanças. Não necessariamente pra melhor. Eu estava MUITO cansado. Alana reclamava por eu estar fumando, não queria sentar ao meu lado, não queria trocar carícias com as mãos, tão típica de mim. Estava cansado. Acho que bebi uma ou duas cervejas. Voltamos eu e Alana pra casa e ficou naquele papo chato de sempre de “te deixo em casa ou você dorme aqui”. Chaaaaaaaato que só. Sempre tinha isso. “Minha mãe briga se eu não dormir em casa blábláblá”. Chato.

Acabei conseguindo entregar a monografia. Foi bem difícil. Foi na mesma época em que me convocaram pra prova física do concurso lá. A Janete da banca da monografia me torrou pesado. Foi traumatizante. Estava brigado com a Alana no dia, pra melhorar. É incrível como as pessoas são incapazes de respeitar o momento alheio. Eu gravei a apresentação e a ouvi depois, e até que gostei do que eu disse, parcialmente. Não ficou lá essas coisas, mas considerando o tanto de obrigação que eu tinha, até que me saí bem. A Júlia, minha orientadora, foi um amor comigo. Me apaixonei por ela! Sua ajuda foi imprescindível. Devia ter deixado meu celular gravando o debate das três julgadoras pra saber depois o que falaram de mim hehe. Estava tensão por causa de uma nota da matéria de Direitos Autorais que eu tava meio pendurado e olhava o sistema todo dia umas dez vezes. Também foi traumatizante. Se duvidar, até hoje eu olho pra ver se eu passei mesmo. Acabou que eu consegui. Felicidade é satisfação em sequência. Fiquei satisfeito. Agora era esperar a colação de grau. A ausência da faculdade deixou em mim uma lacuna. Como eu amava o IDP. Mas agora tudo o que eu queria era terminar mesmo. Eu já estava empregado, e a faculdade me sobrecarregava, atrapalhando o desempenho no trabalho. Eu quase sempre ficava no STJ até depois do Ministro sair, o que acabava resultando em umas dez horas de trabalho diárias. Estava dormindo muito pouco. Surgiram algumas rugas, olheiras, mais gordura. Estava com uma expressão cansada, tristonha. Me formei. No dia da colação eu cheguei lá de bermuda e chinelo. Tava um calor da porra e eu não ia chegar lá de terno pra esperar e tal. Levei o terno no carro. Chegando lá o que acontece? O cara pergunta se eu estou lá pra arrumar as cadeiras. Deus do céu! Essa cara de pobre é uma desgraça haha. Incrível a análise da Alana de que eu saía do IDP da mesma forma em que entrei. Comparação genial. Parabéns. AH, uma coisa que ficou foi a escolha das dez pessoas pros convites. Doutora Luciana, outro amor meu, foi à formatura. Linda! O Ministro não foi. Ele estava doente. À esta altura eu já tinha conquistado o respeito e consideração dele. Ele iria se não estivesse doente. Foi um trabalho milimétrico conquistá-lo, mas eu consegui. Hoje ele não coloca uma crase num texto sem me perguntar se pode. Alana estava linda, com uma saia linda. Fomos todos depois a uma pizzaria. Eu estava me sentindo aéreo, como se aquilo não estivesse acontecendo de verdade. Ansiedade me levando pra longe, longe. Depois a gente veio pra casa. Como eu adorava dormir no quentinho do seu corpo. Era como dormir ao lado de uma estrela, e nessa época de frio, era segurança de não passar frio. Havia uma delicadeza especial em sua coxa, na parte de trás do braço. Sinto falta disso até hoje. Ganhei um livro do Fernando Pessoa. Adoro Fernando Pessoa! Não sei se depois ou antes disso, a gente viajou pra Pirenópolis, com os meninos e o Guilherme. Foi péssimo. Algo que eu bem que gostaria de apagar do ano, mas né… fazer o quê. Uma pessoa que me nega água quando eu estou pagando uma viagem pra ela não merece estar comigo. Queria ter ido pro Rio. Sinto falta do Rio. Aliás, recebi uma proposta de emprego lá. Pensei seriamente em ir. Cheguei a comprar a passagem, a conversar com a Mariana. Mariana me disse que lá tava um inferno, me contou dos assaltos aos shoppings que a gente costumava ir. Meu tio também me recomendou que eu não fosse. Acabei não indo. Não por Alana ou por família, por nada. Nada disso me seguraria aqui. Aliás, na viagem (já disse que foi péssima?) eu queria tirar uma foto de beijinho com a Alana e ela se rejeitou; à noite, iniciou algo de sexo depois virou de lado e cagou pra mim; ficou dando mais atenção pros outros que pra mim; já disse que me negou água…? E teve também um fato que geraria discussões e discussões, insuperado. Num desses momentos pós-trilha, pós Alana negar água pra mim, eu fui fumar com o Guilherme. Nunca entendi direito o que se passou nesse momento. Parece que o Marcos perguntou pra Alana se ela faria um ménage com outro cara e eu e ela disse que sim. Depois o Marcos comentou isso no carro. Óbvio que eu não gostei. Ela, depois, disse que não havia falado nada. Depois disse que havia falado. Depois que não havia falado nada de novo. Alguém estava mentindo, ou ela ou o Marcos, e eu sei bem que o Marcos não é de mentir, ou seja… Isso, somado ao resto das outras coisas, me cansou tanto, mas tanto, que eu me arrependi profundamente de estar com aquela pessoa. Eu era honesto, ou ao menos me achava assim. Às vezes, diante de uma decisão difícil, eu agia com sinceridade, ainda que fosse doer. Era, antes, sobre fazer o certo, sem depender do que haveria depois. Pra ela, era sobre tomar a decisão mais fácil. No final das contas, pra mim, não estava lá tão chateado pelo que ela havia falado, mas pela ausência de firmeza no falar. Primeiro falava que sim, depois que não, depois que sim de novo, depois não. Me senti feito de trouxa, um idiota manipulável, que é alvo de mentiras fáceis, de atalhos sentimentais pra depois fazer o que ela queria. Não. Estava tudo errado nisso. ERA SÓ FALAR LOGO A PORRA DO QUE ACONTECEU. Como eu odeio gente que escolhe o caminho mais fácil. Dizer que o Marcos mentiu? Ah, por favor!

Eu viajando sempre fico um amorzinho. Se uma pessoa não gostou de mim viajando, essa pessoa aí tá uma porra. Foram lutas, algumas vitórias, algumas derrotas, algumas feridas. As vitórias, eu queria alguém pra compartilhar. A Alana durante bastante tempo foi essa pessoa. Até eu não me sentir mais à vontade pra dividir. Diversas vezes que eu falava alguma coisa com orgulho de mim eu recebia uma patada de volta, por má interpretação. O quê que custa entender que eu estava, às vezes, me engrandecendo por orgulho ou vaidade mesmo? Bem, nesse tempo eu quis muita coisa dela. Não é exagero dizer que eu não tive quase nada. No mundo dela, é impossível se fazer alguma coisa simplesmente pra agradar o outro, ainda que sem vontade. Constantemente me chamando de egoísta, cada vez menos vontade eu tinha de fazer qualquer coisa pra ela. A verdade era muito mais o contrário. Lembro de um dia em que eu fui pegar o óculos dela pra por durante três minutos e ela me tomou o óculos de volta. Na viagem, o Bruno pegou o óculos e ficou lá de boa com ele. Um tratamento diferenciado a pior pra mim era MUITO evidente. Até foto dele ela tirou. Eu deveria ter terminado nessa época. Deveria mesmo. Não terminei, talvez, porque eu achasse melhor estar com alguém, ainda que fosse alguém daquele jeito. Ou talvez porque entendesse que eu estaria cobrando demais de novo, cometendo o mesmo erro de relacionamentos passados. Os fantasmas que nos perseguem, sempre. O medo de errar e errar e errar, sempre sobre fatos similares, e não evoluir. Mas não. Dessa vez eu não estava cobrando demais. Pelo contrário, eu sei que eu estava dando pouco de mim e estava cobrando menos ainda. Estava dando pouco porque a minha atenção tinha que ser dividida com faculdade, trabalho, família etc. Terminei com ela em outra ocasião, num dia em que ela reclamou que eu estava rindo demais (porque estava deitada na minha barriga). Olha que bizarro isso! Realmente, talvez terminar por conta disso fosse exagero meu, mas certa ela não estava. Algum dia ela adimitiu isso? Nunquinha. Pela boca saem a vida e a morte. Saem a semente e o arado. Saem a terra fértil e a terra árida. As palavras, tudo o que a gente diz, fazem diferença no mundo dos fatos. Cada vez que eu ouvi uma dessas palavras me desmotivou a seguir. E agora eu vejo que sou mais Mariana que Henrique. Vou aguentando, aguentando, aguentando. Até um dia vir um grande foda-se e eu não querer mais saber da pessoa.

Na volta da viagem, eu chorava no carro. Eram lágrimas de arrependimento e angústia. Lágrimas por, na ida, querer SIMPLESMENTE ir de mãos dadas no carro e ser rejeitado. Lágrimas por ter gastado o tempo, que eu deveria estar descansando diante de todo esse estresse da vida, com uma pessoa, bem, aquela pessoa. Voltei disposto a terminar. Ela mentia. Aliás, não sei se terminar. Talvez estivesse mais voltado a me vingar, ou a me aproveitar da situação, que a terminar. Já estava seco por demais com ela, sem perspectiva de futuro nenhuma, sabendo que aquilo ali realmente não era um fato importante ou marcante na minha vida, pela primeira vez com namoro. Inclusive, nem sabia mesmo se era um namoro. Até aí foram quantos meses? Uns seis. Não tínhamos data de aniversário de namoro, não tínhamos um “relacionamento sério” no facebook, não tínhamos uma música de casal, coisas de casal em geral, nada. Isso foi bem bizarro pra mim. Eu não me sentia bem namorando. Essas formalidades sempre foram importantes pra mim, e sempre serão. Reativei meu Tinder, ainda estando com ela. Deu pra perceber que eu estava insatisfeito né? Não é que eu quisesse ficar imediatamente ou sexo fácil com outra pessoa. Não. Mas eu estava me abrindo emocional e afetivamente a conhecer uma outra pessoa. Estava me sentindo extremamente frustrado com aquele relacionamento em que nada de namoro existia, com exceção de marcar em memes e sexo. Sexo que, inclusive, era ótimo. Esse talvez seja o único ponto em que eu não tenha absolutamente nenhuma reclamação. O ano foi um dos melhores anos da minha vida nesse quesito. Mas o companheirismo não existia. Em diversas ocasiões isso me frustrou. Havia um extremo individualismo da parte dela. Quando eu precisava de ajuda com trabalhinho da faculdade, em tempos de vórtice sulfúrico, quem me ajudou? Bem, acabei pagando a minha prima pra fazer trabalhos pra mim, porque pedir pra Alana era sinônimo de passar raiva. Ela nunca nem me perguntou o que era, só se negava. Dizia que já tinha as coisas dela pra fazer e blábláblá. Era estar num relacionamento solo, com aparição especial da namorada em capítulos esporádicos, especialmente nas horas boas. Nas horas ruins não. Lembro do dia em que ela disse “poxa, mas você pagou a sua prima pra fazer. Bem que poderia ter me pagado e eu faria né?”. Esse foi apenas um dos absurdos que eu tive que ouvir durante o relacionamento. E como isso aqui pretende ser uma fotografia imparcial do ano, devo mencionar também os absurdos que eu falei. Vivia falando da Mariana ex, que ela isso, que ela aquilo. O quanto isso é chato. Mas sinceramente, sei que não serve de desculpas nem nada, eu achei que a Alana não se importasse. Nunca vi demonstração de relevância disso. Com o tempo eu fui parando. Mariana, inclusive, que eu conversei pouco tempo atrás agora, quando eu estava em Cusco. Ela estava indo pra Paris. QUASE foi pro Peru também, sem saber que eu estava lá, em mais uma grande coincidência das nossas vidas, tipo a formatura no mesmo dia. Pois é. Fiz o Tinder e conheci algumas meninas. Não era lá aquele usuário ativo, até porque não tinha lá tanto tempo pra mexer. Outro dia me apresentaram uma estagiária no trabalho. Muito lindinha ela. Vez ou outra saíamos pra almoçar. Não me sentia conectado emocionalmente à Alana. Me sentia solteiro, diante das frustrações. Isso foi errado. Somente nessa época, Alana, me parece, começou a gostar de mim. E eu já não estava mais me importando muito com ela. Não me lembro se terminei de novo. Acho que sim. Os famosos comedores de garotas de programa do trabalho iam ganhando mais um pro time deles. Eu já tinha alguma vontade de ir. Já tinha curiosidade. Já queria ter mais esse assunto com eles, que já pareciam mais amistosos.

A vida ia se tranquilizando. Só trabalhar me fez muito bem. Pelo menos a noite eu tinha pra descansar. Era bom chegar em casa e conversar com a Alana pelo celular… falar uma ou outra besteira. Descansar. O trabalho realmente estava pesado. Outro domingo passou o Bruno aqui me chamando pra ir andar na lancha do pai dele. Foi bem legal também. Passamos em frente da Ermida. Um dia vou comprar uma lancha. Gostei.

Não sabia o que fazer depois do semestre. Nesse eu ia descansar. Passar um tempo sem estudar nada, só trabalhando, aproveitando pela primeira vez do dinheiro em troca de dignidade. Umas três grandes brigas com o Ministro. Situações deploráveis. Alana me aguentava nessa época. Não era lá aquele aguentar ativo, que se importa e aconselha, mas pelo menos me ouvia. Não dava pra exigir muito de alguém que nunca tinha trabalhado na vida. AH, nessa época ela conseguiu um estágio. Eu fiquei felizão! Significava ocupar um pouco do tempo inútil com, sei lá o quê, mas pelo menos ganhar um pouco de dinheiro pra ela. Está me devendo a cerveja com o primeiro salário até hoje. Até hoje também não saiu do papel a carta pra si mesmo daqui a 5 anos. Aliás, nem no papel está.

O que te faz chorar? 

Às vezes a gente chora mesmo. Eu, quase sempre, por saudade ou felicidade. Ultimamente tem sido o cansaço. E um pouco de saudade. Aquela regrinha de não estudar no domingo se foi há muito tempo. Pelo menos parece que está acabando. Queria voltar a ler literatura. E voltar a escrever. E voltar a amar alguém. E que fosse recíproco. E que eu não tivesse que me desculpar e me explicar o tempo todo. Queria muita coisa. Queria descansar, principalmente. Queria conseguir aproveitar isso bem. Queria não me sentir sozinho. Isso cansa, em algum momento. A vida vai bem. O coração vai atípico.

Sempre estou

Meu primeiro beijo foi com a Priscila, mas eu não gostava dela: eu gostava da Viviane. Depois eu estava com a Jessica, mas gostava da Rayzza. Depois eu estava com a Raysa, mas não gostava de ninguém. Depois foi a Sarah. Raysa de novo. Guillermina. Gostava dela. Da Cris eu gostava também, e não pensava em ninguém. Depois outra e outra e eu pensava na Cris. E apareceu outra e eu pensava na Raysa. Depois Mariana, e apagou tudo o que tinha passado antes e apagaria tudo o que viesse depois. Parece que a nostalgia me acompanhou desde o primeiro dia. Agora tem uma menina aí. Sempre tem. Mas eu estou pensando na anterior. Sempre estou.